quinta-feira, 29 de março de 2012

Qualidade da educação no Brasil ainda é baixa, aponta Unesco

Relatório indica que índices de repetência e abandono da escola no País são os mais elevados da América Latina


Elevados índices de repetência e de abandono da escola no Brasil foram apontados em relatório da Unesco   SÃO PAULO - Com índices de repetência e abandono da escola entre os mais elevados da América Latina, a educação no Brasil ainda corre para alcançar patamares adequados para um País que demonstra tanto vigor em outras áreas, como a economia. Segundo o Relatório de Monitoramento de Educação para Todos de 2010, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), a qualidade da educação no Brasil é baixa, principalmente no ensino básico.   Veja o relatório da Unesco   O relatório da Unesco aponta que, apesar da melhora apresentada entre 1999 e 2007, o índice de repetência no ensino fundamental brasileiro (18,7%) é o mais elevado na América Latina e fica expressivamente acima da média mundial (2,9%).   O alto índice de abandono nos primeiros anos de educação também alimenta a fragilidade do sistema educacional do Brasil. Cerca de 13,8% dos brasileiros largam os estudos já no primeiro ano no ensino básico. Neste quesito, o País só fica à frente da Nicarágua (26,2%) na América Latina e, mais uma vez, bem acima da média mundial (2,2%).       Na avaliação da Unesco, o Brasil poderia se encontrar em uma situação melhor se não fosse a baixa qualidade do seu ensino. Das quatro metas quantificáveis usadas pela organização, o País registra altos índices em três (atendimento universal, igualdade de gênero e analfabetismo), mas um indicador muito baixo no porcentual de crianças que ultrapassa o 5º ano. Problemas que a educação brasileira ainda enfrenta, a estrutura física precária das escolas e o número baixo de horas em sala de aula são apontados pelos técnicos da Unesco como fatores determinantes para a avaliação da qualidade do ensino.   Crise financeira   A crise financeira que ainda reprime o desenvolvimento de países em todo o mundo poderá também ter um reflexo bastante negativo na educação, alerta o relatório da Unesco. De acordo com a organização, o aumento da pobreza e os cortes nos orçamentos públicos das nações podem comprometer os progressos alcançados na educação na última década, principalmente nos países pobres.   "Enquanto os países ricos já estão criando as condições necessárias para sua recuperação econômica, muitos nações pobres enfrentam a perspectiva imediata de uma degradação de seus sistemas educativos", alerta Irina Bokova, diretora-geral da Unesco. "Não podemos permitir o surgimento de uma "geração perdida" de crianças privadas da possibilidade de receber uma educação que lhes permita sair da pobreza."   Com este cenário, a Unesco avalia que a comunidade internacional não deverá alcançar nenhum dos seis objetivos estabelecidos em 2000, em Dacar, no Senegal, que, juntos, visam a universalização do ensino fundamental até 2015. Segundo o relatório, seria necessário cobrir um déficit de US$ 16 bilhões para atingir essas metas, acabando com o analfabetismo, que hoje atinge cerca de 759 milhões de adulto no mundo, e possibilitando que as mais de 140 milhões de crianças e jovens que continuam fora da escola tenham a oportunidade de estudar.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A cidade que não desliga: um panorama do uso do celular em São Paulo

Explosão de telinhas marca mudanças na rotina da metrópole, esquenta negócios e pode afetar a saúde de quem exagera


undefined Foto 2-Mesa do MBA da FIA: dispositivos ligados durante a aula
Mesa do MBA da FIA: dispositivos ligados durante a aula
Mario Rodrigues
É noite de calor no Itaim Bibi e a advogada Fernanda Santos, de 24 anos, que durante o dia trocou “mais de uma centena” de emails, “uma dezena” de torpedos e ainda falou “um pouquinho” no Twitter, acaba de registrar no Facebook, com seu iPhone: a amiga Luana estava tomando um chope ao seu lado, no Boteco São Bento. A casa, que já está lotada às 9 da noite, numa quarta-feira, ganha a decoração involuntária de dezenas de telinhas acesas ao longo das mesas, ocupadas por grupos que aproveitam sua vida social, mas mantêm a digital ao alcance dos dedos. Alguns quilômetros adiante, na região dos Jardins, o chef Carlos Bertolazzi comanda o Zena Caffè desdobrando-se entre as panelas e o smartphone, pelo qual monitora o que a clientela está comentando sobre o restaurante. Os habitués sabem que postar nas redes sociais elogios à comida ou espalhar a bela foto de um prato fumegante pode render drinques ou sobremesas de cortesia. “É uma maneira de melhorar a relação e incentivar a divulgação”, diz Bertolazzi.
Mario Rodrigues
Amigas no Boteco São Bento, no Itaim: cada uma na sua
Amigas no Boteco São Bento, no Itaim: cada uma na sua
Enquanto isso, em algum outro bairro, a atriz Fernanda D’Umbra está também de olho em BlackBerrys, iPads, Androids e o que mais houver da parafernália. “Quero que esses aparelhos desapareçam”, brinca. Ela se refere aos dissabores que enfrenta ao ir ao teatro ou ao cinema e perceber sussurros do tipo “Não posso falar” ou a piscadinha de alguma luz de tela na plateia. “Fico irritadíssima, porque sei que quem está no palco percebe imediatamente qualquer tentativa de mexer no telefone.” Quando encenava a peça “Autobahn”, há alguns meses, no Espaço Parlapatões, chegou a flagrar um casal de espectadores navegando na internet, o que a desconcentrou imediatamente.

Com situações semelhantes a essas, de diversão, de negócios e de explícita falta de educação, a cidade incorpora a cada dia o fenômeno mundial da superconexão. Na área coberta pelo código telefônico 11, há nada menos que 144 linhas de celular para cada 100 habitantes (um mesmo aparelho pode ter dois números, com chips de operadoras diferentes). A média nacional é de 118 por 100. Do montante paulistano, 15% operam com tecnologia 3G, padrão que permite maior troca de dados e é muito usado por smartphones.

O fenômeno é percebido em cenas como as que o marronzinho Oslaim Brito, da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), acompanha todos os dias nas ruas. “Esses iPhones viraram uma praga, as pessoas não conseguem parar de teclar nem ao volante”, diz ele. “É comum socorrermos motorista após uma batida e encontrarmos o celular jogado no chão.” Não à toa, o número de multas para quem fala ao telefone ou digita enquanto conduz o carro quase dobrou: foi de 253.220 em 2007 para 473.153 em 2010. Neste ano, até outubro, ocorreram 379.014 autuações.
Mario Rodrigues
Motorista na Avenida Brasil: teclando ao volante
Motorista na Avenida Brasil: teclando ao volante
O uso quase descontrolado dos equipamentos é percebido em diversos ambientes. No salão de cabeleireiro, as clientes não param de teclar nem quando estão debaixo do secador. Em restaurantes, os garçons já se acostumaram com o silêncio entre as pessoas que dividem as mesas, pois todas estão concentradas nas próprias conversas na rede. Os professores das escolas penam para ensinar, enquanto a garotada não tira as mãos de seus telefones. A onda transforma gente como Marcelo Lopes, diretor executivo da Fundação Osesp, em fiscal de bons costumes tentando barrar os aloprados digitais. Na Sala São Paulo, ele orienta os funcionários a chamar discretamente a atenção de quem manuseia as engenhocas durante os concertos — por incrível que pareça, uma situação cada vez mais frequente. “Em todas as apresentações, são vários os que querem, por exemplo, tuitar sobre o que ouvem”, afirma Lopes. “Entendo a vontade de dividir a experiência, mas não custa esperar um pouco.”

A ligação exagerada aos eletrônicos tem explicações psicológicas. Diversos estudos comparam a compulsão a eles à dependência de drogas. A cantora Luiza Possi conta que, em certa medida, o BlackBerry a ajudou a abandonar o hábito de fumar há dois anos. “Depois do almoço, em vez de pegar um cigarro, eu sacava o telefone”, diz ela. Ou seja, trocou um vício por outro. Nas pesquisas sobre os adictos cibernéticos, já se sabe que são diferentes os casos de pessoas que se isolam com seu computador ou videogame dentro de casa — frequentemente, cidadãos que tendem à depressão ou a transtornos bipolares — daqueles em que há perda do controle no uso de aparelhos portáteis, com predisposição para disparadas de ansiedade. A patologia não é mensurada pelo número de horas de conexão, mas pela ausência de autodomínio e pelo prejuízo à vida real.
Mario Rodrigues
Pedestres na Rua Oscar Freire: mundinho digital particular
Pedestres na Rua Oscar Freire: mundinho digital particular
O psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do Grupo de Dependência em Internet do Instituto de Psiquiatria da USP, que existe há cinco anos, está acostumado a lidar com casos graves de adictos digitais. “Em um deles, um adolescente passou 45 horas seguidas em um jogo de computador, dispensando o banheiro e até sujando as calças, em busca de um recorde na aventura”, revela. Situações assim são tratadas com terapia de grupo no ambulatório (informações sobre inscrições estão no site www.dependenciadeinternet.com.br.).

Já o Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática (NPPI), da PUC-SP, usa outro método — a troca de e-mails entre especialistas e pacientes. “Percebemos que esse público dificilmente iria a um consultório para uma abordagem presencial”, explica a coordenadora Rosa Maria Farah. Em geral, o primeiro contato parte de pais preocupados com filhos ou de mulheres em relação ao marido. As orientações para se livrar do vício são feitas em até oito mensagens semanais. “Trabalhamos o autocontrole, porque a pessoa não precisa, e muitas vezes nem pode, ficar totalmente longe da rede”, ela diz. “É algo bem mais próximo de compulsões alimentares, em que o tratamento não é deixar de comer, do que de dependência do cigarro.”
Mario Rodrigues
Maria Rita Alexander, dona do P.J. Clarke’s: pesquisa diária de comentários sobre o restaurante
Maria Rita Alexander, dona do P.J. Clarke’s: pesquisa diária de comentários sobre o restaurante
Essa disseminação digital, é claro, não trouxe apenas problemas. No mundo dos negócios, a cidade ainda aprende a lidar com as novas possibilidades. Poucos setores têm feito isso de forma tão animada como o da gastronomia. Brindes como os distribuídos pelo Zena Caffè são ferramenta poderosa para fidelizar frequentadores e fazer a fama de estabelecimentos no boca a boca. De tanto notar a clientela plugada à mesa, Maria Rita Alexander, dona do restaurante P.J. Clarke’s, decidiu pesquisar diariamente o que teclam sobre a casa. “Respondo a dúvidas e críticas tão logo quanto possível, para ficar tudo resolvido.” Garçons são orientados a abordar clientes que clicam cenas pouco fotogênicas, como um sanduíche já todo mordido, e sugerir que esperem o próximo prato para um retrato melhor.
Mario Rodrigues
Alunos do ensino fundamental do Objetivo: tablets no dia a dia
Alunos do ensino fundamental do Objetivo: tablets no dia a dia
Na área de educação, a tecnologia vem sendo aos poucos incorporada ao dia a dia das escolas. Algumas redes de ensino, como Objetivo e Pueri Domus, já adotaram iPads ou similares na sala de aula. A novidade exigiu a criação de algumas regras. No curso de MBA executivo internacional da Fundação Instituto de Administração (FIA), no bairro do Butantã, está vetado atender ligações. “Mas permitimos que se chequem e-mails nos tablets que fornecemos para as aulas”, diz o coordenador James Wright. “Proibir totalmente seria irreal”, acrescenta ele, que lamenta apenas uma situação comum nos intervalos: muitos dos estudantes ficam pendurados nos próprios equipamentos, em vez de aproveitar a interação ao vivo com os colegas e fazer bons contatos. É nesse cenário que a atenção exclusiva em uma conversa, com os eletrônicos desligados, começa a se tornar item raro. Em treinamento recente comandado pela consultora Claudia Matarazzo para vendedores de carros de luxo, esse foi um dos principais pontos. “A empresa queria deixar claro que, quando quem faz a venda não atende nem o telefone fixo, o cliente se sente especialmente bem tratado”, conta. Na cidade que não desliga, o mínimo de silêncio virou um diferencial.
UM PROBLEMA DE TRÂNSITO
O número de flagrados ao volante falando ao celular ou teclando quase dobrou entre 2007 e 2010
2007 — 253.220
2008 — 373.455
2009 — 456.660
2010 — 473.153

METRÓPOLE CONECTADA
Dados da área abrangida pelo DDD 11
1,44 é o número de linhas de celular por habitante
81,62%* das contas são pré-pagas
15% das linhas operam com tecnologia 3G
* Média paulista

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O PRIMEIRO SUPER-HERÓI BRASILEIRO

Enfim, um herói do lado certo

Recordista de público, Tropa de Elite 2 consagra o tenente-coronel Nascimento, vivido por Wagner Moura, como exemplo do policial honrado com que todos os brasileiros gostariam de contar

Já tendo atraído quase 8,5 mi­lhõesdepessoas aos
cinemas, Tropa de Elite 2 entra em sua quinta semana de exibição co­mo o filme mais visto do ano e o segundo filme brasileiro de maior público na história. Tem todas as chances de ultrapassar os 10 milhões do ainda campeão Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1976. Para além desses nú­meros ÍJ!lpressionantes, Tropa de Elite - o primeiro filme, de 2007 - e sua sequência são fenômenos de repercus­são. O tenente-coronel (no primeiro fil­me, capitão) Roberto Nascimento, vivi­do com intensidade assustadora por Wagner Moura, tornou-se um persona­gem da cultura brasileira.

Os dois filmes protagonizados por ele merecem ser vis­tos duas vezes: uma vez para observar o que se passa na tela e outra para ver a reação do público, que costuma ovacio­nar Nascimento quando ele tortura ban­didos (no primeiro Tropa) e quando espanca barbaramente um político corrup­to (em Tropa 2). Por terem suscitado essa reação barulhenta, os filmes de José Padilha já receberam a velha pecha com que os patrulheiros tentam coibir tudo o que não se enquadre nas suas ideias de acepção ideológica: "fascista". A torci­da por um personagem de ficção, porém, não significa necessariamente endosso a todos os seus atos. A aclamação a Nas­cimento vem, em grande parte, de um legítimo anseio comum aos brasileiros de bem, de qualquer região ou classe so­cial: todos querem circular pelas ruas de sua cidade sem medo do assédio da ban­didagem, e desejam que essa segurança seja garantida por uma policia impeca­velmente honesta, gerida por homens públicos probos. Nascimento é irredutí­vel em seu repúdio à corrupção, seja ela praticada pelo soldado da PM ou pelo secretário de Segurança do estado. E es­sa pureza brutal fez dele um verdadeiro herói nacional.


O código de ética de Nascimento é - para usar a expressão de José Padi­lha - "torto": não condescende com a desonestidade. mas admite a tortura.

"Como o estado falha na segurança, nós, que somos vítimas, temos a ten­dência de buscar soluções personalizadas, individuais. Nascimento dá vazão a essa ânsia por soluções imediatas. Ele é um justiceiro do século XXI brasileiro", define o historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos. Engana-se quem imagina que essa demanda por soluções efetivas na segurança e, sobretudo, por honesLida­de por parte dos agentes do poder públi­co seja veleidade de uma classe média amedrontada. Ex-policial da "tropa de elite" aludida no título dos filmes - o Batalhão de Operações Especiais (Bo­pe) do Rio de Janeiro -, Rodrigo Pi­mentel, colaborador essencial de Padi­lha na elaboração de seus enredos, já assistiu à Tropa de Elite 2 uma dezena de vezes, nos mais variados pontos do Rio de' Janeiro, de shopping centers da Zona Sul a favelas dominadas por milí­cias (tema central de Tropa 2). A cena em que o tenente-coronel encarnado por Wagner Moura mói de pancadas um político ficha-suja foi aplaudida vigoro­samente em todos os lugares .

A corrupção da polícia, em particu­lar, faz-se sentir mais dolorosamente pela população das favelas. Em 2006, uma pesquisa feita pelo Núcleo de Pesquisa das Violências da Universidade Esta­dual do Rio de Janeiro com 3500 habi­tames de bairros distintos da capital mostrou que 60% não confiam na polí­cia, quc consideram corrupta e violenta. A pesquisa ainda revelou que 4,4% des­se universo foi vftima de violência físi­ca, 7, I % de violência verbal e 10% de extorsão por policiais militares. "Esses números podem ser ainda maiores. Em areas violentas e pobres, as pessoas têm medo de acusar a polícia", diz Alba Za­luar, coordenadora da pesquisa. Em 2007, Alba realizou OUtro estudo simi­lar, com foco social mais estreito: foram entrevistados 660 moradores de favelas cariocas. O dado é chocante: 52% dos entrevistados disseram já ter visto al­guémpagando propina a um policial.


"Nenhuma polícia pode ser eficiente se tiver corrupção em seus quadros", diz José Vicente da Silva Filho, ex-co­ronel da Polícia Militar de São Paulo e um dos maiores especialistas brasilei­ros em segurança. As experiências de cidades americanas como Los Angeles revelam uma relação direta entre a mo­ralização da polícia e a queda nos índi­ces de criminalidade. Historicamente marcado por casos de corrupção (que, aliás, forneceram argumento para uma penca de bons filmes, como ChinalOwn e Los Angeles - Cidade Proibida), o Departamento de Polícia de Los Ange­les passou por uma longa intervenção federal entre 2000 e 2009. Dois episódios foram decisivos para determinar essa medida drástica: o espancamento do taxista negro Rodney King por poli­ciais brancos, em 1991, foi o estopim de motins raciais que abalaram a cida­de. Em 1999, um grupo de policiais foi preso por assassinato e envolvimento com o tráfico de cocaína (caso que ins­pirou Dia de Treinamento, estrelaoo por Denzel Washington). O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, então, passou a dirigir a polícia diretamente, fixando metas a ser cumpridas. E esta contratou William Bratton, gestor de forças de segurança que ajudara o pre­feito Rudolph Giuliani a converter No­va York na metrópole mais segura do país. Bratton implantou medidas cuja eficácia já fora testada em Nova York: investiu na cooperação com outras polí­cias e agências de segurança, como o FBI, deu início a uma gestão baseada na cobrança de resultados e, sobretudo, prendeu bandidos em escala industrial (750000 presos em sete anos).-A redu­ção da criminalidade é a segunda mais acentuada entre as dez principais cida­des americanas a vencer o crime (per­de apenas para a de Nova York). Tudo isso foi realizado, é bom frisar, sem nenhuma tolerância com a brutalidade policial encarnada por Nascimento. "Não se pode quebrar a lei para impor a lei", disse Bratton, hoje aposentado da polícia, a VEJA.


O que falta à polícia brasileira são reformas verticais, para expurgar os ele­mentos corruptos e profissionalizar os honestos. As milícias, tema central de Tropa de Elile 2, são uma mostra perver­sa das deturpações a que chega a polícia quando se é Ieniente com a corrupção e a violência. No filme, a milícia instala-se em favelas que o Bope do tenente-coro­nel Nascimento liberou do rráfico, mas na aí cerra simplificaçao ficcionaJ. "Há vários modelos. Em alguns lugares, a milícia tomou o lugar do tráfico, como se vê no filme. Em outros, ela faz acordos com os rraficantes", esclarece o anrropó­logo e especialista em segw-ança pública Luiz Eduardo Soares, coautor, ao lado de Cláudio Ferraz, André Batista e Rodrigo Pimentel, de Elite da Tropa 2. Enrre os maiores interessados na moralização da polícia estão os próprios policiais. É uma questão básica de autoestima. Uma pes­quisa encomendada por VEJA ao institu­to Sensus e divulgada pela revista em dezembro de 2009 constatou que os po­liciais cariocas são os que mais perce­bem corrupção em seus quadros: 46% dos policiais militares veem muita cor­rupção na Polícia Civil, e 52% dos civis dizem o mesmo da PM. Os dados nacio­nais das polícia~ Civil e Militar são alar­mantes: o porcentual dos que admirem a existência da corrupção se aproxima dos 90% em cinco capitais.


A ironia trágica é que os policiais, na linha de frente das conflagrações urba­nas do Brasil, são vítimas preferenciais da violência. Em São Paulo, à medida que decresce a raxa de homicídios (a di­vulgada na semana rerrasada, de 10,17 morres intencionais para cada 100000 habitantes, é a mais baixa em décadas), menos policiais também tombam em serviço. Passaram de 38 em 2006 para 22 em 2009. No Rio, onde as estaústicas acompanham a precariedade da segu­rança pública, pelo menos 89 policiais militares foram assassinados em serviço desde 2007. Em comparação, em Nova York, nos últimos cinco anos, apenas três foram mortos. Em Los Angeles, tal­vez a merrópole mais conflagrada dos Estados Unidos, um policial tombou em a'tãu em 2006 e dois em 2008.


O aspecto simbólico desse descom­passo está bem representado pela pom­pa dos serviços fúnebres dados aos po­liciais americanos - com autoridades a postos, corporação em rraje de gala, pa­rada nas ruas. E indenização, para a fa­rrulia, que pode chegar a 200000 dóla­res. No Brasil, como se vê nos testemu­nhos destas páginas, as viúvas de poli­ciais assassinados rêm em geral de bri­gar para receber pensões parcas'. Os dois Tropa de Elile apresentam um po­licial complicado, miserável em sua vi­da pessoal, que pratica indizíveis atos de violência. Mas, apesar disso - e da desilusão com que ele chega ao fim do segundo filme -, é um homem que se orgulha de sua farda. Esse é um aspecto fundamental para a auto estima da polí­cia - e também para a saúde da demo­cracia brasileira: afinal, uma sociedade que não se reconhece minimamente em sua polícia evidencia um descrédito pe­rigoso nas próprias instituições.


Entre os milhares de homens da lei já rerratados pelos filmes e séries americanos. alguns, como Nascimento, se tomaram icônicos. Por exemplo, o poli­ciaI que arrisca a vida pela honestidade em Serpico, de 1973, ou o Dirty Harry que Clint Eastwood começou a inter­pretar em 1971, irredutível na defesa dos direitos das vítimas e muito flexível no que toca aos direitos dos criminosos. Essas figuras chegaram à condição de ícones porque ecoam um anseio exis­tente na realidade. E a realidade brasi­leira é complexa: as pessoas aplaudem Nascimento; e algumas delas, então, procuram cópias piratas de Tropa de Elile no camelô, pagam "uma cerveji­nha" ao guarda para que cancele uma multa', pedem ao fiscal que vistoria sua reforma que "dê um jeitinho" (e como é ofensivo o uso desse diminutivo preten­samente inocente). Para que Nascimen­to - ou melhor, uma versão civilizada dele - deixe de ser exceção e se tome regra, cada cidadão tem de deixar de ahrir exceções para si e seguir também ele as regras. Da mesma maneira que o primeiro Tropa de Elile demonstrava que um cigarro de maconha aceso numa festa de classe média põe um fuzil nas mãos de um menino do morro, cada "cervejinha" toma mais distante o so­nho de uma polícia civilizada. Esse é, talvez, o único aspecto em que Tropa de EliTe 2 desaponta: na invocação de uma ideia de "sistema", cuja engrenagem perversa seria tão carregada pela inércia da corrupção e da ineficiência que gira­ria sozinha, a despeito de tudo e todos. Mas não há "sistema": o que há é a so­ma das ações dos indivíduos.



José Padilha resiste a considerar o personagem de seus filmes um herói. "Ele tortura inocentes e mata pessoas que deveria prender. Não tem as virtu­des morais que o senso comum exige de um herói", diz. Mas um herói - em particular, um herói de ficção - não precisa se apresentar como um ser hu­mano exemplar, de moral irretocável. Ao considerar os heróis da tragédia clás­sica grega em sua Poética, o filósofo Aristóteles dizia que os homens com­pletamente virtuosos ou totalmente maus não servem para esse papel: a si­tuação trágica por excelência, dizia ele, é a do homem de grande reputação, mo­deradamente virtuoso, que cai no infor­túnio não por ser vil, mas "por força de algum erro". Resguardadas as diferen­ças entre um blockbuster brasileiro e o teatro grego, é cabível afirmar que o per­sonagem vivido por Wagner Moura é uma figura dessa estirpe, vítima da arro­gante ideia de que sua simples promo­ção a subsecretário de Segurança do Rio seria o bastante para limpar a criminali­dade e a corrupção policial da cidade. O tenente-coronel Nascimento, em suma, é um herói da tragédia brasileira. _


COM REPORTAGEM DE RONALDO SOARES E SÉRGIO MARTINS



"AGORA NÓS SOMOS pop STARS"

Criado em 1978, o Bope (no início, Companhia de Operações Es­peciais, ou COE) tinha como única função resgatar reféns e conta­va com quarenta homens para essa atividade. Atualmente, são 400, e a meta é dobrar o número do efetivo até 2016, quando será realizada a Olimpíada no Rio de Janeiro. No comando do Batalhão há mais de um ano, o tenente-coronel Paulo Henrique Moraes, de 45 anos, lidera uma tropa reconhecidamente impiedosa nas ações extraordinárias feitas em centenas de favelas do Rio de Janeiro. Antes de viajar para Is­rael, onde negociará cooperação para aulas teóricas e práticas de contraterro­rismo no Brasil, ele falou sobre as normas do Bope e sobre como Tropa de Elite transformou seus integrantes em figuras célebres.

Qual o significado de o capitão - e agora tenente-coronel - Nascimento, de Tropa de Elite, ser considerado um herói nacional? Significa o ideal de justiça do povo. Ele quer pessoas que trabalhem obstinadamente. O Nasci­mento é paradoxal e exagera em seus comportamentos, mas é, acima de tudo, um idealista. E isso atrai a simpatia da população. Ele deixa a vi­da pessoal e os problemas familiares de lado, se dedica e se expõe a riscos para enfrentar um sistema corrompido.


Como os cariocas veem o Bope hoje?


O Bope virou pop star no Rio. A gente tem um apoio muito grande da popu­lação. Viramos comentário até na bo­ca de criança. Para você ter ideia, para o Dia das Crianças lançaram aqui no Rio um caveirão de brinquedo - um carrinho que imita nosso veiculo blin­dado - e esgotou.


O caveirão é alvo constante de críticas.

Por quê? As pessoas não entendem. ham que é um tanque de guerra que vai atirar para todos os lados. Não é. Ele não tem arma. É só uma blindagem­ para proteger o policial quando ele entra em certas comunidades. Serve ­para levar a tropa até um ponto de­terminado, no qual os policiais saltam em a pé. É imprescindível. Se chegar ­num carro comum, o policial ficará
totalmente desprotegido, e qualquer disparo poderá ser letal. Veja, estou falando de lugares onde somos recebi­dos com arma de guerra.

Como é o preparo de um policial do Bope?

É bem superior ao de outros policiais.O policial do Bope tem uma carga diária de mais de três horas só preparo físico. E ainda faz treina­ntos específicos, de três dias - ações na montanha ou com helicópte­. por exemplo -, uma vez por mês.

o policial do B0pe é mesmo mais ho­nesto que os outros?

É. Se o cara pensa em fazer algo errado, vai evi­tar vir para cá. A credibilidade do Bope tem tudo a ver com a lisura de suas ações. A partir do momento em que tivermos casos de corrupção, cairemos em descrédito. Além do trabalho preventivo, qualquer condu­ta errônea tem de ser imediatamente banida. Uma simples suspeita já é suficiente. Se o cara olhou diferente, eu mando afastar. Aqui eu não posso desconfiar. A própria tropa cria uma pressão sobre seus componentes pa­ra andar na batida certa. É muito forte a exigência de não ser corrup­to. A gente aqui aperta. Até pela vantagem financeira que temos em comparação com outros policiais (o salário líquido de um policial do Bo­pe é de 2800 reais), exijo o máximo. É como seleção brasileira. Se não está jogando bem, eu desconvoco.


"O Bope é o topo"



Pela quarta vez consecutiva, o cabo Raul José Fonseca de Araújo, 313 anos, tenta ser admitido pelo Bope. É um sacrifício. Raul já foi reprovado uma vez por exces­so de peso e outras duas porque se ma­chucou durante os exercícios. Com nove anos de serviços prestados à polícia, ele explica sua determinação: "Quero estar numa unidade em que a corrupção não é tolerada". Casado, filho de um militar e com cinco primos policiais mais velhos que ele, Raul diz que o ofício "está no sangue". A ideia de ser treinado nos limi­tes da resistência física e psicológica é algo que o enche de ãnimo. "Estar no Bope é estar no topo", ele resume



"Quero ser um bom exemplo"


Depois de sete anos no Exército e cinco na Polícia Militar, o soldado André Silva, 32 anos, acaba de iniciar o curso de preparação para ingressar no Batalhão de Operações Especiais (Bope), seu maior sonho. A aprovação depende­rá de seu desempenho nas próximas seis semanas. Filho de uma costureira e de um pintor de carros', pertencer à tropa de elite da polícia é, para André, um claro sinal de ascensão. Diz ele: "Com seleção tão rigorosa, o Bope não admite policiais que já se envolveram em atos de corrup­ção. Isso me motiva a fazer parte do grupo". Outra razão para aspirar ao Bope é o tipo de tarefa que passará a de­sempenhar. "Quero entrar, ao lado dos mais preparados, no combate ao tráfico", afirma. Casado e pai de uma filha de 2 anos, André garante, com o idealismo dos novatos:

"Vou ser um bom exemplo".


A pensão que nunca vem


Viúva do cabo Luiz Henrique de Souza Duarte, que morreu aos 38 anos, ao ter o carro metralhado por bandidos quando deixava seu batalhão, no Rio de Janeiro, a manicure carioca Alexandra Jesus de Souza, 33 anos, até hoje luta para receber aquilo que lhe é de direi­to, por lei: uma indenização de 20000 reais e uma pensão de 1600 reais mensais. O crime ocorreu em agosto de 2009. A situação se arrasta por causa de um imbróglio burocrático. Alexandra, que viveu com o PM durante dezessete anos e com quem teve uma filha, hoje com 7-, precisa provar que mantinha com ele uma união civil estável.


"Já entreguei à polícia um monte de papéis comprovando nossa união, mas eles estão claramente enrolando para adiar o pagamento da dívida", queixa-se ela, que vem contando com a ajuda financeira de parentes e amigos enquanto aguarda uma decisão da Justiça so­bre o caso. "Depois do enterro, a PM virou as costas para minha famí­lia", diz, indignada. "Fico me perguntando por que meu marido deu tanto suor, e até morreu, sendo fiel a uma corporação como essa."


Nem sequer um telefonema


Em 1999, a dona de casa carioca Rosemery de Santana Manoel, 52 anos, presenciou a morte do marido, o sargento Edson José Manoel, então com 43 anos, no exato momento em que ele chegava do trabalho à casa onde mora­vam, na Baixada Fluminense. Minutos antes, o sargento havia expulsado um bando de criminosos do local em que traficavam drogas, bem próximo dali. Dois deles o executaram com cinco tiros nas costas. Edson m'orreu no ato. Trau­matizada, Rosemery passou a sofrer crises de pânico e ficou cinco anos sem conseguir sair de casa sozinha. Seus dois filhos, à época com 6 e 16 anos, também se desestruturaram com a perda do pai. A polícia pagou o enterro e uma indenização de 20000 reais, como prevê a lei. "O tratamento psicológico das crianças ficou por minha conta", exalta-se a viúva. Até hoje, uma ação se arrasta na Justiça para que Rosemery receba a pensão a que tem direito, no valor de 1200 reais - ela está ganhando 1000 reais. "É triste ter de lutar para receber o que me devem. Meu marido dedicou dezenove anos da vida dele à polícia. Mas, depois que foi assassinado, ninguém deu sequer um telefonema para saber como estávamos"

domingo, 1 de janeiro de 2012

A diferença que separa um sonho de uma meta

Imagem de Destaque
Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho já serve
Ano novo, vida nova! Depois da virada de mais um ano, existe algo diferente no ar. Já diz o poeta: "Ainda bem que existem janeiros...". Na mídia, na rua, no trabalho é comum ouvir alguém dizer que neste ano vai comprar uma casa, ou viajar para tal lugar, trocar de carro, ou simplesmente que este ano vai ser diferente!

São sonhos e metas que se entrelaçam e dão um novo ânimo para a vida. Algo interessante que descobri nesses dias é a diferença que separa um sonho de uma meta. Talvez até hoje você só tenha sonhado com o que gostaria de realizar na vida, mas nunca tenha dado nem um passo concreto para realizar este sonho, ou seja, está vivendo sem meta.

Segundo a psicóloga e escritora Danielle Tavares - "Meta é um alvo definido. Um ponto certo aonde se quer chegar. E pode-se aplicar este conceito nas diversas áreas da vida: família, profissão, estudo, relacionamento afetivo e social, economia, finanças pessoais, etc."

Em clima de recomeço, considero importante avaliar nossos reais objetivos e reconhecer quais destes são metas. "Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho já serve."

Quando não buscamos concretamente o que queremos ou sonhamos, acabamos "atirando para todos os lados" sem acertar o alvo. Desse jeito pode-se chegar ao final sem ter o que comemorar, e isso não é a vontade de Deus para nenhum de seus filhos, inclusive você.

Pergunto-lhe: Você sabe que rumo está dando para sua vida com o trabalho que realiza agora? Tem buscado no dia a dia o que realmente deseja alcançar? Se a resposta for negativa, provavelmente você não esteja feliz, e é possível que sua vida esteja sem sentido. Daí vem a pergunta: Mas e agora? O que fazer?

Acredito que neste e em todos os casos, devemos sempre lembrar que nunca é tarde para recomeçar. Independentemente da idade ou situação em que se esteja, com a graça de Deus e força de vontade, tudo é possível. Sonhar e querer algo é importante, mas isso não basta quando se trata de realização. É hora de traçar metas e dar passos concretos.

Ouvi uma historinha, há pouco tempo, que me ajudou a entender a diferença entre meta e sonho, veja só: Havia cinco macacos no galho de uma árvore: dois deles decidiram pular e pegar algumas bananas que estavam ali perto. Então vem a pergunta: Quantos macacos permaneceram no galho? A resposta é simples: os cinco animais continuaram no galho. Sabe por quê? Porque decidiram pular, mas nenhum deles fez isso de fato.

Precisamos começar bem o ano, para vivê-lo bem por inteiro. Acredito que definir as prioridades e dar passos para chegar aonde se quer é um ótimo ponto de partida. Disso vem a transformação de vida: a partir das atitudes e preferências concretas do dia a dia. Claro que isso não se consegue de uma hora para outra, empenho e perseverança são fundamentais. É também uma questão de escolha e disciplina pessoal. O apóstolo Paulo, em uma de suas cartas, diz: "Nenhum atleta será coroado, se não tiver lutado segundo as regras" (II Timóteo 2 , 5).

Que o Senhor nos ensine a buscarmos do jeito certo as metas que queremos alcançar neste ano novo e sempre.

Feliz vida nova para você!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Lei aprovada em SP proíbe consumo de álcool por menores de 18 anos

Do UOL Ciência e Saúde

Em São Paulo
O projeto de lei 698/2011 que proíbe venda, oferta e permissão de consumo de bebida alcoólica a menores de 18 anos em estabelecimentos do Estado de São Paulo foi aprovado pela Assembleia Legislativa nesta terça-feira, 20. O projeto, proposto pelo governador Geraldo Alckmin, cria mecanismos de fiscalização e controle para cumprimento do que rege o Estatuto da Criança e do Adolescente e agora segue para a sanção do governador.
O Estado busca conscientizar supermercados e donos de bares e outros estabelecimentos a não vender bebidas a menores e também a não permitir o consumo de álcool no local. A ideia é coibir o velho hábito de um maior de idade comprar bebidas para menores de 18 anos.

Jovens estão consumindo mais álcool

O álcool é a droga mais usada entre jovens com menos de 18 anos. Estudo feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostrou que cerca de 40% dos 5.200 estudantes entrevistados haviam bebido no mês anterior à pesquisa. Destes, 46% afirmaram que o primeiro consumo de álcool ocorreu em casa. Já o I Levantamento Nacional sobre Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas verificou que 80% dos 18 mil universitários entrevistados, menores de 18 anos, já consumiram algum tipo de bebida alcoólica. Mas qual será a explicação para um consumo tão alto entre os adolescentes?
O psicólogo especializado no Tratamento e Prevenção ao Uso Abusivo de Álcool e Drogas, Rodrigo Garcez, acredita que diante de um número cada vez maior de drogas ilegais que surgem no mercado, como crack, cocaína e maconha, o uso do álcool acaba sendo encarado pelas pessoas como algo menos perigoso. "A bebida é uma droga socialmente aceita e a cultura da "cervejinha" no fim de semana faz parte da sociedade brasileira. Muitas famílias ainda consideram essa droga menos nociva e, por esse motivo, na maioria das vezes a iniciação ao álcool ocorre no ambiente familiar", alerta o especialista.
Outro fator que colabora com o consumo de bebidas alcoólicas pelos adolescentes é a vontade de ser aceito em seu grupo de amigos e ter uma boa imagem com os colegas. O uso do álcool, em muitos casos, representa uma espécie de ritual de passagem da infância para a vida adulta ou mesmo um ritual de pertencimento a um grupo." O uso do álcool, em muitos casos, representa uma espécie de ritual de passagem da infância para a vida adulta ou mesmo um ritual de pertencimento a um grupo." "Quando uma família permite que nos encontros familiares o menino ou a menina tome alguma bebida alcoólica, esse jovem entende que os pais não o veem como criança e que agora ele faz parte do mundo adulto ou daquela roda de amigos", explica Rodrigo Garcez.

Mitos e Verdades

Para saber se um jovem possui mais propensão a fazer uso dessas substâncias ilícitas, é importante ficar atento ao fator hereditário, que pode aumentar as chances do adolescente desenvolver alcoolismo. "Também é interessante observar se menino ou menina apresenta um quadro de compulsividade e impulsividade em relação ao uso do álcool. Geralmente a predisposição genética, associada a um quadro compulsivo, é um fator de alerta, mesmo naquele jovem que bebe há pouco tempo", lembra o psicólogo.
Antigamente era mais comum que os consumidores do gênero masculino ingerissem maior quantidade de álcool do que o público feminino. No entanto, o especialista acredita que atualmente essa teoria está ultrapassada. "Observo, no meu consultório e conversando com outros colegas de profissão, o aumento do alcoolismo entre mulheres na faixa dos 30 e 40 anos. Se antes uma mulher que bebia era socialmente mal vista, nos dias atuais isso deixou de ser uma crença social", compara Garcez.

Prevenção

Para o especialista, a melhor forma de prevenir os altos índices de consumo do álcool e de outras drogas é por meio do diálogo nas escolas e no ambiente familiar. "Os adolescentes têm muitas dúvidas e curiosidades que podem levá-los de maneira quase ingênua à experimentação dessas substâncias. Muitas vezes eles sequer conhecem os prejuízos reais que isso pode ter na sua vida, seja no nível físico, emocional, mental ou social", enumera Rodrigo.
Sendo assim, palestras e rodas de conversa com parentes e profissionais especializados, além da exibição de trechos de filmes e documentários sobre o assunto podem ser um caminho utilizado pelas escolas e famílias. A ideia é que a informação chegue aos jovens de uma maneira reflexiva, crítica e consciente e colabore com o desenvolvimento sadio dos adolescentes.
Vale lembrar que é expressamente proibida a venda de álcool para menores de 18 anos.

Futuro

Especialistas de diversas áreas, como médicos, psicólogos e assistentes sociais acreditam que há chances de elevação do quadro de alcoolismo na sociedade brasileira num prazo de 20 a 30 anos. Ao contrário do usuário de cocaína ou crack, que faz o usuário sentir rapidamente sente os efeitos prejudiciais dessas substâncias, o alcoólatra pode demorar anos até buscar tratamento. Isso acontece porque os efeitos do consumo de bebida alcoólica só são sentidos a médio e longo prazo. "Um jovem de 25 anos que faz uso abusivo do álcool pode desenvolver um quadro de alcoolismo com síndrome de abstinência. Se ele não beber, é possível que tenha alucinações, crises convulsivas e quadro de confusão mental. Mas pode levar de 10 a 20 anos para que ele perceba todos esses efeitos", avalia o psicólogo.
O uso abusivo do álcool favorece o aparecimento de problemas físicos e mentais, como depressão; transtorno bipolar; prejuízos no fígado, rim e vesícula; incapacidade de manter o foco e a atenção, entre outros. Em estágio avançado, o alcoolismo também pode gerar dificuldades na vida social, no trabalho e na família. "Quando chega a esse nível, significa que o alcoolismo já está instalado e sedimentado na estrutura biopsicosocial da pessoa, tornando o tratamento e seus resultados menos promissores. Por isso é importante que o usuário busque ajuda de profissionais qualificados para reverter esse quadro", esclarece Rodrigo.

Fatores Culturais Influenciam Uso do Álcool Entre Crianças

"Um estudo inédito desenvolvido por profissionais do Hospital de Clínicas de Porto Alegre revelou que os hábitos, a cultura e o ambiente são fatores que potencialmente influenciam o uso de álcool na infância. A pesquisa teve como base a cidade gaúcha Flores da Cunha, na região da Serra, considerada o maior pólo produtor de uva e vinho do País".

Região da Serra Foi Alvo de Pesquisa

O alcoolismo na infância é um problema social que deve ser discutido por todos. Muito embora se saiba que a grande maioria dos casos ocorra por influência de amigos e colegas de escola, é preciso prestar atenção para a influência do ambiente familiar. Pesquisas já comprovaram que o uso abusivo do álcool pelos familiares é capaz de levar uma criança a despertar inocentemente o interesse pela bebida.

No entanto, uma pesquisa inédita no Brasil, realizada por profissionais do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) no Rio Grande do Sul, estudou a influência dos hábitos regionais na incidência do uso de álcool entre crianças. A coordenadora do estudo, a gastroenterologista do HCPA, Themis Reverbel da Silveira, teve o interesse despertado pelo assunto quando, ao tratar vítimas de cirrose hepática por álcool, notou que três eram oriundas de uma região tradicionalmente produtora e consumidora de vinho no Rio Grande do Sul: a Serra Gaúcha.

Estudo Revelou Consumo Superior a Um Litro por Semana

O trabalho, intitulado "Consumo de Bebidas Alcoólicas por menores de 15 anos residentes em um município de colonização típica italiana no Rio Grande do Sul", foi realizado no ano de 1991 junto a 92 famílias residentes na zona rural do município de Flores da Cunha. Após analisar os hábitos familiares e acompanhar de perto uma criança de cada família, a pesquisa revelou que 58,5% das crianças ingeriam algum tipo de bebida alcoólica. A alta incidência foi diagnosticada em crianças com idade entre oito meses a nove anos. "As mães têm o hábito de molhar o bico da chupeta da criança, ainda muito pequena, no vinho", afirmou Themis. Mas ela ressalta que nada é feito de forma intencional. O que leva os pais a essa atitude são os hábitos culturais daquela região, típica produtora de vinho.

O que preocupa a especialista é a quantidade de álcool consumida pelos menores. Em alguns lares foi verificado que crianças chegavam a ingerir 1,3 litro de álcool por semana, sem que o alto consumo fosse notado pelos pais. "Um volume muito alto que chama a atenção", afirma. Outro resultado interessante da pesquisa é que 75% das crianças que faziam uso regular do álcool, no caso vinho e cerveja, eram do sexo masculino e apenas 25% do sexo feminino. Para a gastroenterologista do HCPA, esse dado revela a imposição machista que predomina naquela região. "Os pais consideram normal que o filho homem beba, até pela sua condição de macho", disse Themis.

Hábitos dos Pais têm Influência Direta

Entre os 58,5% das crianças que ingeriam regularmente o álcool no ambiente familiar, 100% dos pais e 75% das mães tinham o hábito de beber diariamente. "Além disso, 51% dos entrevistados tinham produção própria de vinho e 2% produziam em casa a graspa, bebida obtida pela destilação da uva fermentada", informa Themis. Para ela, todo o trabalho serviu para mostrar a facilidade do acesso da criança ao álcool no ambiente familiar. "O 'terreno' naquela região é altamente propício para que menores de 15 anos, no futuro, venham a constituir grupo de risco", salientou.

Estudos realizados com crianças em períodos distintos indicou a redução da idade média de início do uso do álcool. Um trabalho elaborado no ano de 1993 junto a escolas de dez capitais brasileiras mostrou que a idade média era de 13 anos. Já em outra pesquisa feita no ano de 1997, com crianças que já estavam em tratamento, a idade média passou para 11 anos.

Para a médica clínica especialista em dependência química do Hospital Nossa Senhora da Conceição, de Porto Alegre, Elaine Segura, só há um jeito de uma criança desenvolver a dependência pelo álcool: usando. Neste sentido, o comportamento familiar tem importância fundamental. "O consumo de álcool pelos pais ou parentes próximos despertam o interesse das crianças. Pode acontecer a aversão pelo álcool nesses casos, mas não é freqüente", salientou Elaine. A experiência de oitos anos no tratamento de dependentes junto ao Setor de Alcoolismo e Dependência de Outras Drogas do Hospital Conceição leva a especialista a acreditar que, em alguns casos, as crianças passam a consumir o álcool com o propósito inocente de proteger os pais.

Também há relatos de crianças que passam a adquirir o hábito influenciadas pelas mães, Elaine explica. "Como o vício não é socialmente aceito entre as mulheres, muitas vezes as mães pedem para seus filhos comprarem o produto no bar. Isso gera um hábito na criança", afirmou. Vale lembrar que a legislação brasileira proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos. Na teoria, pois na prática a situação é bem diferente no Brasil.

"Em hipótese alguma deve se oferecer álcool a uma criança, mesmo quando imperem fatores como tradição e cultura", destacou a médica do Conceição. Os efeitos do álcool no organismo de uma criança têm um impacto muito maior em relação aos adultos pois, antes dos 14 anos, o fígado ainda não está pronto para metabolizar o álcool.

Alcoolismo Precoce Dá Sinais Específicos

O alcoolismo precoce compromete o desenvolvimento, a coordenação motora e o funcionamento do fígado. O uso excessivo de bebidas pode afetar praticamente todos os órgãos e sistemas do organismo. O aparelho gastrintestinal é particularmente atingido. Podem ocorrer gastrites, úlceras, inflamação do esôfago, pancreatite e cirrose. Outros aparelhos atingidos são o cardiocirculatório (podendo ocorrer pressão alta, infarto do miocárdio) e o sistema nervoso (epilepsia, lesões em nervos periféricos).

O alcoolismo infantil dá sim, sinais claros. A combinação de três dos sintomas a seguir indica uso de álcool pelo jovem: mudanças bruscas de humor, isolamento, tonturas, inapetência, andar cambaleante, vermelhidão, enjôos, tremores, sonolência, agressividade e mau desempenho escolar. Ao diagnosticar o problema, os pais devem manter o diálogo aberto, mostrando o certo e o errado. Outra dica é buscar ajuda especializada para si mesmo.

Aumenta o Consumo Entre Adolescentes Brasileiros

Mesmo proibida para menores, a ingestão de álcool por adolescentes tem crescido nos últimos anos. Pesquisa feita em 1995, com 600 adolescentes do Rio de Janeiro e de São Paulo, revelou que 42% bebiam eventualmente, índice bem superior ao dos que usam maconha (4%) ou cocaína (1%). Outro estudo, realizado em 1996 pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo em dez estados brasileiros, mostrou que 19% dos jovens entre 10 e 18 anos tomavam bebida alcoólica mais de seis vezes por mês. Em 1989, esse índice era de 14%. Os que consumiam álcool cerca de 20 vezes por mês passaram de 8% para 12%.

Estudos apontam que 10% da população brasileira, aproximadamente 16 milhões de pessoas, são alcoólatras e que apenas 20% deles se recuperam. Outros estudos apontam que havendo motivação e apoio familiar, a eficácia dos tratamentos fica em torno de 50%. A internação, ainda vista como a melhor alternativa pelos familiares, é indicada em menos de 10% dos casos.

Biotônico Fontoura na Mira do Governo

Comprar para as crianças fortificantes que estimulam o apetite antes das refeições pode tornar-se um ato ilegal. Um projeto de lei que proíbe a venda em São Paulo de produtos como Biotônico Fontoura foi aprovado pela Assembléia Legislativa. Segundo a deputada estadual Edir Sales (PL), autora da idéia, os fortificantes fazem com que os menores se tornem alcoólatras, caso tenham predisposição à doença.

"O Biotônico Fontoura, por exemplo, tem o mesmo teor alcoólico do vinho branco. Poucas mães sabem disso e dão a seu filho esses produtos sem saber que podem estar criando um alcoólatra", afirmou. Alguns médicos, no entanto, afirmam que a proposta não tem nenhum embasamento científico.

O Conselho Regional de Farmácia do Distrito Federal (CRF-DF) também encaminhou denúncia ao Congresso Nacional acusando o fabricante do remédio Biotônico Fontoura, a DM Indústria Farmacêutica, sediada em São Paulo, de manter o teor alcoólico da medicação acima do tolerável. O biotônico tem 9,5% de etanol em sua composição, concentração maior à de uma lata de cerveja, que apresenta 5% de álcool, em média. Segundo o CRF-DF, o excesso de álcool no produto pode levar crianças à dependência.